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Editorial | BR-222: até quando a vergonha será de madeira?

E, novamente, por pouco não estamos falando de uma tragédia

Sábado, 28 de fevereiro de 2026. Mais uma ponte cede na BR-222 entre Batalha e Piripiri. Mais um caminhão fica preso. Mais uma interdição total. E, novamente, por pouco não estamos falando de uma tragédia ainda maior.

Não se trata mais de um problema de inverno. Não é apenas quando o rio enche ou quando a chuva aperta. O que existe ali é um problema crônico. Um risco permanente que acompanha quem precisa atravessar aquelas pontes todos os 365 dias do ano.

A rodovia foi asfaltada e entregue em dezembro de 2020. Mas a obra nasceu incompleta. Pontes de madeira permaneceram onde deveriam existir estruturas definitivas de concreto. Desde então, o trecho acumula interdições, remendos emergenciais, atuação do Exército, anúncios políticos e a repetição de uma pergunta simples: até quando?

Neste sábado, a Polícia Rodoviária Federal confirmou a interdição total no km 83 após o cedimento parcial da base de uma ponte. Um caminhão ficou preso sobre a estrutura. Não houve vítimas desta vez. Mas ao longo dos últimos anos, o trecho já registrou diversos acidentes, alguns com consequências graves.

Em outubro de 2025, foi anunciado que o Governo Federal havia autorizado a licitação para a construção de cinco pontes de concreto. O projeto executivo estaria previsto para o início de 2026. A população ouviu. Esperou. E segue atravessando madeira.

Enquanto isso, moradores da região enfrentam o trajeto com medo. Estudantes passam por ali diariamente em busca de futuro. Trabalhadores dependem da estrada para garantir sustento. A cada travessia, não se sabe se a estrutura vai suportar.

Um morador resumiu a indignação: “É só no Piauí mesmo para existir isso: uma BR com recurso federal e pontes de madeira.” Outro foi direto: “Quando tiver um acidente com algum político grande pode até interditar.”

São frases duras. Mas revelam um sentimento que já ultrapassou o limite da paciência.

Há também uma reflexão incômoda. A revolta cresce quando a ponte cede, quando o caminhão fica preso, quando a estrada é interditada. Mas a cobrança precisa existir antes da próxima queda, antes do próximo susto. Governos devem respostas concretas e a população precisa manter a vigilância ativa, inclusive nas urnas.

A BR-222 é eixo de integração regional. Não pode funcionar com soluções improvisadas permanentes. Pontes de madeira não são compatíveis com o volume de cargas que circula ali.

O que se vive naquele trecho não é apenas precariedade. É descaso prolongado. É risco anunciado. É uma vergonha estrutural que atravessa anos, governos e promessas.

Hoje foi um caminhão de brita. Amanhã pode ser um ônibus escolar. Ou algo irreparável.

O problema não é de estação. É de gestão. E já passou da hora de deixar de ser promessa e virar concreto.

Diário de Caraibas

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